quarta-feira, 14 de junho de 2017

Bela distância

por Wagner Hilário

No plano de fundo da tela de entrada de seu computador, uma cidade encrostada nas pedras do litoral turquesa: velhos e encardidos castelos, edifícios pálidos, telhados caramelos, bem vivos, sob a luz do sol no céu azul, coalhado de nuvens brancas nas bordas, tépidos icebergs de sonhos... Ele queria viver ali, naquele lugar alado.

domingo, 16 de abril de 2017

Naná e a Terra do Sempre

por Wagner Hilário


São quase oito anos de saudade numa só manhã, tão cheia de ressaca de trabalho do dia anterior.

A notícia da morte da cachorra do meu menino, Gabo, que a viu pela primeira vez quando só tinha cinco anos, fulminou-me mais do que quando soube da morte da minha própria cachorra, Chulipa, com quem havia convivido por mais de 14 anos, depois de tirá-la da rua, debilitada e com visíveis sequelas de uma cinomose. Eu tinha 11 anos quando a vi pela primeira vez e 25, quando ela partiu. Gabo já era nascido.

A cachorra do meu menino, Naná, se foi neste domingo de Páscoa: complicações de uma diabetes tardiamente descoberta. Seu fígado foi violentamente castigado e não houve insulina, nem veterinário, nem tempo, nem oração que a salvasse.

Sinto a dor de Gabo. Sinto a sua dificuldade, aos 12 anos, em aceitar uma despedida tão indesejada. A morte é a certeza mais secreta que existe; é uma tristeza que, ao delimitar o nosso tempo, dá sentido à vida. Veja que ironia!

Foi tão de repente que a vida de Naná cruzou a nossa. Estávamos, minha esposa e eu, em viagem. Meu menino, triste por não ter ido conosco, recebeu, de aniversário, de minha mãe, a alegre e indomável vira-lata, então, com dois anos.

Naná tinha o pelo castanho clarinho. Seu nome foi o próprio Gabo quem deu. Não foi por acaso. À época, o desenho favorito dele era Peter Pan. Naná chegou, em julho de 2009, para suprir, no coração dele, nossa momentânea ausência. Fez muito mais do que isso.

Que outra coisa a fazer, neste instante, nesta Páscoa, então, senão agradecer... Obrigado pela companhia, Naná. Vá em paz! Vemo-nos em breve, não mais no tempo dos homens, mas no tempo de Deus, que é tudo e sempre.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Se eu fosse apenas...

por Cecília Meireles

Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
— de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...


Da obra “Cecília — Antologia Poética”
Global Editora/Edição 2013 – SP


Encontrei esse poema de Cecília Meireles e me encantei com seu caráter singelo e profundo. Os versos são lindos e tornam a intimidade doída que revela ainda mais afiada e aguda.

sábado, 10 de dezembro de 2016

À dureza do arado e da semeadura, a esperança da colheita

por Wagner Hilário

Recebi, dia desses, pelo WhatsApp, de um primo, vídeo falando sobre a importância de arar a terra. Por que se ara a terra? Ora, porque, assim como a gente, a terra fica mais sensível, mais fértil, mais receptiva à semeadura quando está ferida. Arar é rasgar, ferir a terra; é descompactá-la, porque, compactada, não entra nem água, que dirá semente. Arar é amolecê-la, é abri-la para que seja capaz de renascer em frutos, verduras, legumes e flores. Arar é revirar, tirar da zona de conforto, deixar vulnerável para a vida, porque a dureza e a insensibilidade não nutrem nada, nem ninguém.

O vídeo me fez pensar que vivemos hoje, no Brasil, um momento de arado. A vida inteira, eu escutei que estávamos fadados a ser gentinha em uma terra maravilhosa. A vida inteira, ouvi dizer que essa terra era para poucos e insensíveis senhores que nada têm a ver com os nossos sonhos. A vida inteira, eu discordei do fatalismo desse papo furado, embora concordasse que, circunstancialmente, a terra estava nas mãos dos tais senhores insensíveis; senhores que precisavam ser arados. O fato é que continua nas mãos deles, mas eu continuo a discordar do fatalismo da sentença: as coisas estão mudando, esses senhores estão sendo arados; nossa terra está sendo revirada pelo tempo e pelos valores democráticos que, pouco a pouco, conseguimos compreender com mais clareza.

É normal que alguns insistam em analisar o Brasil sem considerar a perspectiva histórica, que vejam os episódios recentes como a prova de que estamos perdidos, mas estou certo de que estão errados: o Brasil está se encontrando.

O termo “estado democrático de Direito” foi muito mal gasto nos últimos tempos. Nós nunca o tivemos, por aqui, na acepção estrita do termo. Vamos começar a tê-lo agora. É fundamental termos em mente que, até a década de 1990, nós, sequer, tínhamos leis anticorrupção. A gestão pública no Brasil era uma enorme caixa preta e, só por isso, não podemos afirmar, com absoluta certeza, que se roubou mais, o País, no período da ditadura militar e nos anos anteriores do que se rouba agora. O que se pode dizer, porém, com convicção, é que hoje, mais do que antes, a gente sabe que está sendo roubado e que os velhos suspeitos, de fato, são os culpados.

Recentemente escutei uma especialista da Unesp dizer, na rádio, exatamente isso. Ela ainda completou dizendo que, na década de 1990, com as normas de combate à corrupção — que devem ser aprimoradas ao longo do tempo —, o Brasil estabeleceu seu sistema de prevenção à corrupção. A segunda etapa passava pelo aprimoramento do sistema de monitoramento, ou seja, pelos organismos responsáveis por zelar pelo sistema preventivo. Estamos falando do Ministério Público (MP), da Polícia Federal (PF) e do Judiciário.

Esses organismos existem há muito, mas seu comando e corpo mudam ao longo do tempo. Gerações, que não entendem por que a prática é tão diferente da teoria, chegam a postos importantes nesses órgãos e resolvem fazer valer o poder que têm. Pessoas, menos preocupadas em serem bem pagas para ficarem quietas do que dispostas a entrarem para a história por terem feito algo diferente dos seus antecessores, aparecem e pronto: temos um novo cenário, que a maioria dos analistas, da grande mídia ou de redes sociais, insiste em interpretar com cabeça velha.

A Lava-Jato, eu estou certo, não é uma ação político-partidária, mas o símbolo de uma mudança que vai muito além e envolve muito mais pessoas do que um ou outro policial, procurador ou magistrado, até porque o indivíduo, só, é frágil e pode se perder em vaidade e egolatria. Vive-se, no País, algo maior, de natureza coletiva. Está em curso um processo de aprofundamento do estado democrático de Direito, em que o Judiciário, bem remunerado e repleto de regalias pessoais, é bom que se diga, deixa de ser mero avalista de nossos “reis e nobres”, para ser, de fato, o terceiro poder. Essa transformação, que não se dá sem conflitos, nem traumas, abre espaço para que, enfim, tenhamos parlamentares e executivos eleitos que, verdadeiramente, representem o povo, para que o Brasil passe a ser, como nunca em sua história, nosso.

O Brasil está sendo, em outras palavras, arado e será novamente arado quantas vezes Deus quiser. A nós, cabe, em primeiro lugar, semearmo-nos a nós mesmos com novas, boas e justas ideias e, em segundo, semear o País com o que há de melhor em nós. Assim, colheremos, finalmente, o futuro que sonhamos a cada novo presente.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Frutos Amargos

por Wagner Hilário

É cedo para colher os frutos da dor,
mas eles precisarão ser colhidos.
Nada pode ser em vão na vida.
No coração do poeta,
cada sentimento tem muitos sabores;
por mais amargo que sejam alguns,
terão sempre o doce do verso,
os nutrientes do verbo,
a verve — combustível necessário
para seguirmos em frente, sempre

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Só me faça um favor na vida...

por Wagner Hilário

— Só me faça um favor na vida, filho, não tenha dó de si mesmo.

A figura do pai, já falecido, revisitando-o em sonho, com aquela frase que nunca lhe havia dito, mas que seria sua cara dizer, não deixou dúvida a Renato de que tinha de lamentar menos e realizar mais. Mesmo com os exemplos que via no dia a dia, de pessoas progredindo ao se fazerem de coitadas, seu inconsciente, com a gravidade da voz paterna, dizia para não ceder à tentação, não se entregar ao canto da sereia da autopiedade.

— Seja o forte, não o fraco que vence pela dó do outro — completa o pai, que preserva, no sonho, os olhos inchados do álcool que bebia em vida, a barba mal feita, os perdigotos que soltava enquanto falava e os lábios vermelhos intensos, características herdadas pelo filho.

Os orientais sempre disseram que é difícil discernir entre o que é, de fato, mundo palpável e o que é fruto da nossa imaginação. Essa dúvida, por aquelas bandas, é tão forte que já se crê, por lá, que, muitas vezes, não há diferença entre o que se imagina e o que existe. É comum dizerem que, na realidade, só existe o que se imagina. Exagero, sem dúvida. Mas também é exagero, pensa Renato, acreditar que se é capaz de discernir com clareza esses dois mundos. “Como não se pode duvidar que a realidade que vemos não é, na verdade, fruto da imaginação?”, pergunta enquanto escuta a namorada Diana comentar seu sonho.

— Que delírio! — Diz ela. — ‘Cê podia ter sonhos mais úteis.

— O abstrato é um terreno mais fácil pra mim.

— Vai morrer solteiro e de cirrose, então.

— Não estou longe disso, mas você e todo o seu pragmatismo também não. Ou acha que ainda é uma mocinha de 25 anos e que aquela branquinha ali é H2O?

Diana não gostou do que disse o namorado, mas procura não demonstrar que acusou o golpe. Acende um cigarro, que combina com suas olheiras e os dentes levemente amarelados, e começa a falar de darwinismo social.

— Vinga na vida o que melhor se adapta à realidade, não o mais forte, ainda mais quando o conceito de força está em se manter leal às próprias ideias. — Para finalizar seu discurso, ela devolve o ataque... — Idealistas, como você, são os maiores covardes do mundo.

— ‘Tá exagerando na ofensa.

— ‘Tô falando sério, é o que penso.

— Não disse que ‘tava brincando, falei da ofensa... Por que são os maiores covardes?

— Porque têm medo da batalha. Querem colocar um monte de regras, porque sabem que, com essas regras, a vitória é certa. A vida não tem regra, tem consequência. A consequência é a regra da vida.

Renato olha nos olhos escuros de Diana, que contrastam com seus cabelos loiros-brancos de química: há mágoa. A voz dela em seu discurso inspirado, ao ponto de confundir Renato, saiu entrecortada. Ele interpretou a voz embargada como uma demonstração de carinho incomodado. Toda mágoa tem um toque de carinho. Renato olhou pela janela do quarto, cinza de nuvens ao fundo e colorida de prédios remendados com massa fina em primeiro plano. Sem voltar os olhos a Diana, pergunta:

—E se o idealista souber da consequência antes, por isso não se submete ao canto da sereia?

Diana fecha os olhos, primeiro, depois abaixa a cabeça. Parece querer chorar ou ir embora.

— Se eu sonhasse com minha mãe, ela ia me dizer: “A vida é um teatro e você deve saber a hora de interpretar esse ou aquele personagem, o segredo é fazer tudo isso sem jamais esquecer sua verdadeira identidade. O segredo é fazer tudo isso e arcar com as consequências dos atos de seus personagens, sem esquecer quem você é de verdade”. Agora, eu te pergunto, Renato, sabendo que, no íntimo, você não é o personagem, como sofrer suas dores sem uma boa e espontânea dose de autopiedade?

Renato pensa de cabeça baixa. Diana o observa com certa pena, como se ele fosse alguém desolado diante dos cacos do seu entendimento da vida, tentando encontrar um novo jeito de montá-los. De repente, ele levanta a cabeça e, com ar abstrato, solta:

—E se o idealista for o personagem e não a pessoa de verdade?

Diana ri. A mágoa se desfaz, como gases em contato com simeticona. Pensa, “Uma pergunta pode esclarecer mais dúvidas do que qualquer resposta”, e percebe que ela e o namorado, no fim das contas, sempre se entenderam...

— É por isso que te amo tanto — ela responde.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Um conto, dois tontos e a roda da fortuna

Por Wagner Hilário

Podia gritar aos quatro cantos que lugar de vagabundo era na cadeia e que não tinha esse papo de dó, nem de direitos humanos. Podia...

Podia coçar o saco sentado na cadeira, com os pés em cima da mesa feita de jacarandá; sorriso demagogo nos lábios, boca aberta, porque, ali, do jeito que’tava, não tinha risco de mosca entrar.

Podia, quando não estava contando as cifras ou tendo uma grande sacada para enricar ainda mais, sempre às custas dos outros, ficar admirando a grandiosidade de sua sala, os diplomas comprados e as fotos solenes nas paredes, com ele, todo-todo, cara de tonto e faixa brilhosa no peito. Podia tudo, ou quase tudo, amigo.

Podia se dar ao luxo de escrotar quem estava abaixo, até porque eram poucos os que estavam acima. Mas, como diz o nego veio sábio, o mundo dá vorta, cambaioteia, o que’tava no cocuruto, de repente, vai parar no pé e vira raspa de pele com cheiro de chulé.