domingo, 12 de novembro de 2017

Sempre é cedo

por Wagner Hilário

Café e tarde
coados
no azul de um domingo
                  ensolarado
   de ontem
e de amanhã

É assim, sempre:
o presente
é uma borra de saudade
e de esperança


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O Maior dos Substantivos

por Wagner Hilário

É multiforme
mora nas estrelas e nas nuvens
que as encobrem
no silêncio e na palavra
é o leito do tempo
que é incapaz de apagá-lo
é o passado no presente
o presente no passado
o futuro jamais preterido
é o que move e remoça
quando já se pensava acabado

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A selva das almas perdidas

por Wagner Hilário

São tantos os papéis a interpretar na vida, que aqueles, sobre a mesa, com pedidos médicos de exames para investigar pólipos na vesícula, passaram-lhe despercebidos. O PSA também não foi feito; não deu tempo. Nunca trabalhou tanto na vida e se viu tão pouco, ou nada, refletido no fruto do que produz. Nunca se sentiu tão vulnerável, tão vivo e, ao mesmo tempo, tão anestesiado. Já não sabe o que é ou não aceitável. Não sabia que, para alcançar seus sonhos, teria de cruzar uma selva de almas perdidas, nem que essa travessia poderia roubá-los de seu horizonte, ao ponto de esquecer-se que, um dia, os havia sonhado.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Bela distância

por Wagner Hilário

No plano de fundo da tela de entrada de seu computador, uma cidade encrostada nas pedras do litoral turquesa: velhos e encardidos castelos, edifícios pálidos, telhados caramelos, bem vivos, sob a luz do sol no céu azul, coalhado de nuvens brancas nas bordas, tépidos icebergs de sonhos... Ele queria viver ali, naquele lugar alado.

domingo, 16 de abril de 2017

Naná e a Terra do Sempre

por Wagner Hilário


São quase oito anos de saudade numa só manhã, tão cheia de ressaca de trabalho do dia anterior.

A notícia da morte da cachorra do meu menino, Gabo, que a viu pela primeira vez quando só tinha cinco anos, fulminou-me mais do que quando soube da morte da minha própria cachorra, Chulipa, com quem havia convivido por mais de 14 anos, depois de tirá-la da rua, debilitada e com visíveis sequelas de uma cinomose. Eu tinha 11 anos quando a vi pela primeira vez e 25, quando ela partiu. Gabo já era nascido.

A cachorra do meu menino, Naná, se foi neste domingo de Páscoa: complicações de uma diabetes tardiamente descoberta. Seu fígado foi violentamente castigado e não houve insulina, nem veterinário, nem tempo, nem oração que a salvasse.

Sinto a dor de Gabo. Sinto a sua dificuldade, aos 12 anos, em aceitar uma despedida tão indesejada. A morte é a certeza mais secreta que existe; é uma tristeza que, ao delimitar o nosso tempo, dá sentido à vida. Veja que ironia!

Foi tão de repente que a vida de Naná cruzou a nossa. Estávamos, minha esposa e eu, em viagem. Meu menino, triste por não ter ido conosco, recebeu, de aniversário, de minha mãe, a alegre e indomável vira-lata, então, com dois anos.

Naná tinha o pelo castanho clarinho. Seu nome foi o próprio Gabo quem deu. Não foi por acaso. À época, o desenho favorito dele era Peter Pan. Naná chegou, em julho de 2009, para suprir, no coração dele, nossa momentânea ausência. Fez muito mais do que isso.

Que outra coisa a fazer, neste instante, nesta Páscoa, então, senão agradecer... Obrigado pela companhia, Naná. Vá em paz! Vemo-nos em breve, não mais no tempo dos homens, mas no tempo de Deus, que é tudo e sempre.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Se eu fosse apenas...

por Cecília Meireles

Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
— de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...


Da obra “Cecília — Antologia Poética”
Global Editora/Edição 2013 – SP


Encontrei esse poema de Cecília Meireles e me encantei com seu caráter singelo e profundo. Os versos são lindos e tornam a intimidade doída que revela ainda mais afiada e aguda.

sábado, 10 de dezembro de 2016

À dureza do arado e da semeadura, a esperança da colheita

por Wagner Hilário

Recebi, dia desses, pelo WhatsApp, de um primo, vídeo falando sobre a importância de arar a terra. Por que se ara a terra? Ora, porque, assim como a gente, a terra fica mais sensível, mais fértil, mais receptiva à semeadura quando está ferida. Arar é rasgar, ferir a terra; é descompactá-la, porque, compactada, não entra nem água, que dirá semente. Arar é amolecê-la, é abri-la para que seja capaz de renascer em frutos, verduras, legumes e flores. Arar é revirar, tirar da zona de conforto, deixar vulnerável para a vida, porque a dureza e a insensibilidade não nutrem nada, nem ninguém.

O vídeo me fez pensar que vivemos hoje, no Brasil, um momento de arado. A vida inteira, eu escutei que estávamos fadados a ser gentinha em uma terra maravilhosa. A vida inteira, ouvi dizer que essa terra era para poucos e insensíveis senhores que nada têm a ver com os nossos sonhos. A vida inteira, eu discordei do fatalismo desse papo furado, embora concordasse que, circunstancialmente, a terra estava nas mãos dos tais senhores insensíveis; senhores que precisavam ser arados. O fato é que continua nas mãos deles, mas eu continuo a discordar do fatalismo da sentença: as coisas estão mudando, esses senhores estão sendo arados; nossa terra está sendo revirada pelo tempo e pelos valores democráticos que, pouco a pouco, conseguimos compreender com mais clareza.

É normal que alguns insistam em analisar o Brasil sem considerar a perspectiva histórica, que vejam os episódios recentes como a prova de que estamos perdidos, mas estou certo de que estão errados: o Brasil está se encontrando.

O termo “estado democrático de Direito” foi muito mal gasto nos últimos tempos. Nós nunca o tivemos, por aqui, na acepção estrita do termo. Vamos começar a tê-lo agora. É fundamental termos em mente que, até a década de 1990, nós, sequer, tínhamos leis anticorrupção. A gestão pública no Brasil era uma enorme caixa preta e, só por isso, não podemos afirmar, com absoluta certeza, que se roubou mais, o País, no período da ditadura militar e nos anos anteriores do que se rouba agora. O que se pode dizer, porém, com convicção, é que hoje, mais do que antes, a gente sabe que está sendo roubado e que os velhos suspeitos, de fato, são os culpados.

Recentemente escutei uma especialista da Unesp dizer, na rádio, exatamente isso. Ela ainda completou dizendo que, na década de 1990, com as normas de combate à corrupção — que devem ser aprimoradas ao longo do tempo —, o Brasil estabeleceu seu sistema de prevenção à corrupção. A segunda etapa passava pelo aprimoramento do sistema de monitoramento, ou seja, pelos organismos responsáveis por zelar pelo sistema preventivo. Estamos falando do Ministério Público (MP), da Polícia Federal (PF) e do Judiciário.

Esses organismos existem há muito, mas seu comando e corpo mudam ao longo do tempo. Gerações, que não entendem por que a prática é tão diferente da teoria, chegam a postos importantes nesses órgãos e resolvem fazer valer o poder que têm. Pessoas, menos preocupadas em serem bem pagas para ficarem quietas do que dispostas a entrarem para a história por terem feito algo diferente dos seus antecessores, aparecem e pronto: temos um novo cenário, que a maioria dos analistas, da grande mídia ou de redes sociais, insiste em interpretar com cabeça velha.

A Lava-Jato, eu estou certo, não é uma ação político-partidária, mas o símbolo de uma mudança que vai muito além e envolve muito mais pessoas do que um ou outro policial, procurador ou magistrado, até porque o indivíduo, só, é frágil e pode se perder em vaidade e egolatria. Vive-se, no País, algo maior, de natureza coletiva. Está em curso um processo de aprofundamento do estado democrático de Direito, em que o Judiciário, bem remunerado e repleto de regalias pessoais, é bom que se diga, deixa de ser mero avalista de nossos “reis e nobres”, para ser, de fato, o terceiro poder. Essa transformação, que não se dá sem conflitos, nem traumas, abre espaço para que, enfim, tenhamos parlamentares e executivos eleitos que, verdadeiramente, representem o povo, para que o Brasil passe a ser, como nunca em sua história, nosso.

O Brasil está sendo, em outras palavras, arado e será novamente arado quantas vezes Deus quiser. A nós, cabe, em primeiro lugar, semearmo-nos a nós mesmos com novas, boas e justas ideias e, em segundo, semear o País com o que há de melhor em nós. Assim, colheremos, finalmente, o futuro que sonhamos a cada novo presente.