sexta-feira, 10 de junho de 2016

Força maior

por Wagner Hilário

Olhou o diagnóstico do trânsito astrológico do dia; haveria equilíbrio e serenidade em seu íntimo. Emoção e razão andariam de mãos dadas; Mercúrio e Lua formavam um aspecto harmonioso entre si, um trígono. Assim, estaria inspirado para ouvir e aconselhar com sensatez. Mais ciente de si, de seus sentimentos, o dia era especialmente favorável para a relação com as mulheres. Pensou: “Seria ótimo, se eu não fosse feio, nem gago”.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Outono

por Wagner Hilário

Apesar da estação,
ainda não vejo folhas secas.
Ouço, contudo,
o ruído do tempo
corroído por histórias
que, caídas das árvores,
já deveriam estar mortas
para fecundar, de inspiração,
desejos e,
enfim, dar vida
a novas histórias.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sobre pilantras, perigosos e meias palavras

por Wagner Hilário

— Já dizia um velho ditado de alguma parte perdida do mundo: “Desconfie de um homem sem vícios”.
— E se o cara realmente for cheio de virtudes, qual o problema?
— Desconfie. Melhor um tirano “pré-confesso” do que com discurso democrático, deixando “o rabo da sua verdade” para ser descoberto só quando já for tarde.
— Mas, se o cara for tirano, nem lhe dou crédito.
— Por isso.
— O mentiroso é o problema, então?
— Principalmente, o que mente a si mesmo.
— Como assim?
— O pilantra que sabe que é pilantra esconde mal, porque não tem vergonha de ser pilantra.
— Mas, por aqui, esse é o "favorito", ‘tá com tudo, manda derrubar e dá aumento pra quem não tem mais nem de onde tirar. Esse é o que manda, esse é o perigoso de verdade.
— É não.
— Claro que é.
— Ele tem poder, mas os que mentem a si mesmos têm mais.
— Do que ‘cê ‘tá falando?
— Do sujeito que mente a si mesmo.
— Isso não me diz muita coisa. Quem é esse? Explica.
— Se você me prometer que não vai se identificar com ele, eu conto (rs).
— ‘Tá me estranhando?
— Bom... Perigoso é o sujeito que aparece menos e que usa os pilantras sabidos para fazer o trabalho sujo.
— Você meio que já disse isso. Me explica direito.
— Então, vai... Perigoso mesmo é o cara que dá corda aos pilantras que sabem que são pilantras. É o que diz: “vou usar esse pilantra porque ele tem estômago para fazer o trabalho sujo que precisa ser feito para o ‘nosso bem’”.
— ...
— Perigoso, mesmo, é aquele que, ao público, só mostra o que faz de limpo, mas, no íntimo, vale-se dos pilantras para derrubar outros perigosos, adversários que atrapalham seus planos e que também tentam se esconder atrás de outros pilantras. Perigoso é o que não julga, nem condena o pilantra sabido, porque o pilantra, como disse, é forte e vai lhe garantir aumento gordo, mesmo em tempos de crise. É o que defende, em discurso, as minorias, a maioria carente, a justiça social e, na socapa, embolsa grana pública para enricar a “causa”. Perigoso é quem não faz autocrítica; é o cara que, mesmo depois de tudo isso, ainda é capaz de acreditar, de verdade, que é "gente de bem" e que mereceu tudo o que tem. É desse cara que falo... Se identificou?

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Ser que sou

por Wagner Hilário

Sou sempre dúvidas,
mas, há dias,
em que sei ser, só,
decisão.
Queria ser sempre,
assim,
mas não sou, não.
Sou bicho do mato,
filho dos astros
e não é preciso razão,
nem Freud,
para eu ser
quem não quero.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Ídolo de infância à venda

Por Wagner Hilário

Cedo, viu seu destino nas mãos: seu ídolo defendia, não atacava. Cedo, também, seus olhos murcharam: o herói partia, em cifra$. Como podiam valer mais que tanta história?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Ciclo

por Wagner Hilário

De menino, queria ser livre; jovem, tentava ser; adulto, queria ser menino; velho, descobrira: só a morte livra. Ele preferia a vida, então.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015