quarta-feira, 7 de abril de 2010

Perspectiva de arrebol

por Wagner Hilário

Lembro-me de ter ouvido algumas vezes a palavra arrebol, mas nunca me dispus a saber o que significava.

Nunca li, mas sempre ouvi a palavra arrebol empregada em trechos de músicas, poemas ou prosas bonitos. Bonitos talvez não seja a palavra. Alegres. Alegrinhos, melhor ainda. Pra mim, o trecho alegrinho sempre prejudicou o encanto do verbete, e eu me desinteressava dele.

Mas quando me dispus a conhecer o que quer dizer, abrindo o dicionário eletrônico, descobri também que a palavra pode ser menos bela que seu significado. Ou ainda, que sua feiura fonética pode virar beleza quando sabemos o que quer dizer.

Arrebol: “Vermelhidão do nascer ou do pôr do sol”, ensina o Aurélio. Estou ansioso pra ver, ansioso pra usar a palavra... Arrebol, sempre gostei de você, mas não sabia seu nome.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Sentimento do Mundo

Por Carlos Drummond de Andrade

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.


Poema extraído do livro Sentimento do Mundo (pág. 09), que integrou a Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros (2008), do jornal Folha de São Paulo, que conseguiu o direito de publicar a obra junto à Editora Record, titular do seu direito de edição.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ao pé do morro

por Wagner Hilário

Queiroz beijou o chão do pé daquele morro depois de um ano vivendo nele. Há um ano quebrara as algemas, livrara-se dos grilhões, cicatrizara as chagas dos pés e da alma; sua pele respirava aliviada bafejada pela sombra e o ar condicionado do supermercado em que trabalhava a salvo do sol do velho engenho. Há um ano, o pouco que ganhava era seu e servia pra pagar a ração da prole. Ano antes, a comida que fiava do Patrão valia mais que o suor fertilizante que derramava no solo. Veio do norte fugido, devendo o olho da cara.

Durante doze meses, tudo no barraco era riso, era novo. O povo do morro era tal e como: a maioria também vinda de cima, escapulida de uma afetuosa tirania patriarcal. Boa parte dos que miravam daquele mirante a imensidão azul do mar Atlântico à luz do dia, que viam o Cristo de costas, mas ainda assim a iluminar a tenebrosa noite de fogos da periferia sobranceira, era cria do Coronel. Queiroz não demorou a se sentir em casa, no lar que, de verdade, até então nunca tivera.

A princípio estranhou os meninos, alguns com a idade de seu filho mais velho, a empunhar metralhadoras mais pesadas que enxadas, carrinhos de mão, fardos de arroz e feijão; mas mais leves que canetas, livros e, quem sabe um dia, fardão. Depois passou a vê-los como anjos tortos, derribados do Céu pra cumprir o papel de salvá-lo dos representantes do Patrão. “Apesar de que”, ele se lembrava de ver amiúde no morro homens de gravata que lhes salvaguardavam o direito de viver ali, mesmo sendo “geologicamente perigoso”.

— Geô’quê, rapaz! N’ tem coisa mais perigosa que a fome, não. O resto é ficha — dizia Queiroz.

Belo dia, a noite se avizinhava, o sol se despedia laranja, feito lava, e nuvens carregadas de cinza e eletricidade brotavam no céu, que antes fora inteiro safírico. Antes de mergulhar por completo no mar, já não se podia mais ver o astro diurno. O turno de Queiroz não tinha acabado e ele lamentou o trânsito que seguramente se formaria após a tempestade, que mais tarde chamaria de dilúvio. Do alto, caíram todos os oceanos da terra, um marulhar ininterrupto de ondas, só surfadas pela morte.

Pegou o ônibus pra casa às 11 da noite, mas já antes se afligia com o celular impassível da esposa, o diz que me diz que do cobrador dando conta de enchentes intermináveis e de deslizamentos que levaram dos morros os homens e seus barracos... Deu vertigem quando viu a confusão de luzes intermitentes das equipes de resgate e salvamento, quando viu o espanto dos que regressavam a suas famílias, bichos de estimação e televisão, quando viu o pranto dos que só podiam esperar o pior, já que no morro não se podia mais divisar como antes o que era vértice, encosta e pé.

A procura foi intensa. Queiroz esperava, como que desperto de uma noite rica de sono. Combatia o desespero, apelava ao sentimento paternal do bombeiro, que lhe concedeu o direito de procurar junto. Queiroz procurou, procurou, procurou até sua fé também deslizar. Depois de um soluço pálido de resignação, põe-se de joelhos e beijou, saudoso e sovado, o chão do pé daquele morro.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ela e o vento

por Wagner Hilário

Diante de si, caminhos em profusão e encruzilhadas, um zilhão de alternativas e no gibão um cantil macerado com água, ingerida economicamente a cada gole bem espaçado. Na beira das vias há de haver um pé de sei lá o quê que lhe sirva de sustento, instante de satisfação, pra se esquecer dos lamentos.

— Pr'onde ‘cê vai moça? — pergunta o vento.

— Pensei que soubesse, mas quando pisei no cascalho, esqueci ao certo.

— Então me deixa soprá’ seu rosto, pra vê’ se devolvo pro ‘cê a memória.

— Pó’ soprá’.

— Vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv... Lembrou?

— Lembrei.

— Então pr'onde?

— Vou pr'onde o vento sopra minha memória.

— Então já não precisa í’. ‘Tô aqui... lhe ventando.

— Mas você nunca para, vento, anda todo tempo, ‘tá em todo canto. Preciso segui-lo.

— Se ‘tô em todo canto, pare num qualqué’, poupe seus pés e seu pranto e ouça meu canto que é tato... macio.

— Ma’ com’é que não pensei nisso antes.

— ‘Tava andando feito tonta, não parou pra pensar nem sentí’ que ninguém se perde na estrada sem antes se perdê’ de si.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Manhã de Cão

por Wagner Hilário

O nome dele é Rui. Na rádio Sulamérica Trânsito, chamaram-no “ouvinte Rui”.

— Gostaria de alertar que no sentido-Rio de Janeiro da Dutra há um cãozinho magrinho tentando atravessar. Alguém precisa ajudar o bichinho a atravessar, porque senão teremos mais um bichinho morto na estrada. Seria importante que as autoridades tomassem alguma providência, pra impedir que isso aconteça.

A mensagem do Rui — mais ou menos o que se lê acima — fora gravada na caixa-postal da rádio e transmitida ao público ouvinte com a mesma seriedade com que a emissora informa sobre as condições dessa ou daquela via. Os ouvintes entram no ar, geralmente por gravações telefônicas, e dizem algo como: “peguei a via a tal e está horrível, quem puder, pegue outra” ou “peguei a rua x em alternativa à y e me dei muito bem, recomendo a todos que estiverem por esses lados”. Os apresentadores fazem o mesmo.

Porém, a mensagem do “ouvinte Rui” não tratava de salvar compromissos ou aplacar a impaciência dos motoristas. Rui não pedia um guincho da concessionária da rodovia pra desobstruí-la. Nenhum caminhão tinha capotado, nenhum motoqueiro tinha ido parar embaixo de carro nem dois moleques tinham colidido durante um racha. O problema não era dos homens nem de suas máquinas, mas do cão, ali, na piedade de sua magreza, bastante atrapalhado pelos homens e suas máquinas.

O Rui quis salvar o bichinho. Lógico, parar o carro na Dutra e descer pra ajudá-lo seria perigoso pra ambos. Assustado, o cachorro podia correr pro meio da rodovia e ser desossado por um... dois pneus. Clamou às autoridades em rede metropolitana de rádio, tratando o animal pelo diminutivo, como costumamos fazer com nossos jogadores de futebol, amigos e parentes. Não sei se foi atendido, mas ele e o sujeito que selecionou sua mensagem pra ir ao ar salvaram minha manhã no congestionamento.

Esse texto foi publicado anteriormente no blog www.narravidas.wordpress.com

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Mater dolorosa

Por Adélia Prado

Este puxa-puxa
tá com gosto de coco.
A senhora pôs coco, mãe?
— Que coco nada.
— Teve festa quando a senhora casou?
— Teve. Demais.
— O que que teve então?
— Nada não menina, casou e pronto.
— Só isso.
— Só e chega.
Uma vez fizemos piquenique,
ela fez bolas de carne
pra gente comer com pão.
Lembro a volta do rio
e nós na areia.
Era domingo,
ela estava sem fadiga
e me respondia com doçura.
Se for isso o céu,
está perfeito.

Esse texto foi extraído da obra de Adélia Prado intitulada Oráculos de Maio, editada pela Siciliano.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A corça branca

Por Jorge Luis Borges

De que agreste balada de verde Inglaterra,
De que lâmina persa, que região arcana,
Das noites e dias que o nosso ontem encerra,
Veio a corça branca com que sonhei esta manhã?
Duraria um segundo. Vi-a cruzar o prado
E perder-se no ouro de uma tarde ilusória,
Leve criatura feita de um pouco de memória
E de um pouco de olvido, corça de um só lado.
As deidades que regem este curioso mundo
Deixaram-me sonhar-te, porém não ser teu dono;
Talvez numa esquina do porvir profundo
Volte a encontrar-te, corça branca de um sonho.
Também eu sou um sonho lúcido que perdura
Um pouco mais que o sonho do prado e da brancura.

Este poema foi extraído da obra Livro dos Sonhos, escrita em parte, compilada em outra por Jorge Luis Borges. Editada pelo Círculo do Livro em 1976, a obra foi traduzida por Cláudio Fornari.