terça-feira, 15 de março de 2011

O pecador sou o outro

/por Wagner Hilário/

Me olho no umbigo, me calo
O silêncio é meu advogado
Olho do lado, me salvo
O deslize do outro é o bode
Que expia meus pecados


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Soma

/por Diego Carvalho/

Já reparou quão bela é a noite cheia de estrelas prateadas entrepostas no céu?

Ainda me pego procurando-as em teu cabelo e nele fico perdido. Mesmo de
longe ou ainda que de perto, sempre com receio que você perceba, eu encho meus
copos com esperança e espero que você os beba nem que seja só por provar. É
a chance que tenho de me aproximar, poder sentir teu cheiro e a tua pele,
olhar nos teus olhos e te enxergar. Olhos vastos que me confrontam como
palmos de terra castanha, vivos, completos, e eu tão vazio ainda não sei como
te mergulhar... como em você me apoiar sem fazer com que se canse.

Teus traços fortes, tais como a correnteza de um rio, quase me fazem render
por completo a guarda, e palavras me fogem do alcance. Deve ser seu mistério,
o fato de eu me perder em teu sorriso, de me pegar olhando para tua boca e não
saber realmente o que mais me atrai.

Já reparou como é linda quando sorri? É como uma dessas estrelas cadentes
que deixa qualquer um estarrecido achando que viu algo único. E quando seu
sorriso esbarra em mim... já reparou em uma estrela cadente? É exatamente
assim.

Sua voz fica sempre ao meu norte e guia meus passos até traços de lã. Você por
toda parte se espalha. Te procuro ao leste a noite e te acho a oeste de manhã.
Flores se abrem e, como uma malha, aquecem o frio aos poucos. Eu acho que é sua
presença sem nem mesmo você estar por perto e não estou louco. Ainda não!

Diego Carvalho escreveu o livro, Quebra-Cabeças em Peças de Vida, estuda sistemas de informação, trabalha na área de programação e suporte de banco de dados, "adora projetos de animação" e dá aulas de jiu-jitsu e muay thai. É frequentador desse "sítio" desde o ano passado.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Retorno

/por Wagner Hilário/

Saudad’ocê,
doce, como só você

Saudad’os seus olhos
horizontes
desfazendo as nuvens
d’hoje
pousando o voo
que ainda nem decolou

Saudad’ocê
pois já tem tempo
meus olhos não veem
o seu sorriso...

Saudad’isso

domingo, 19 de dezembro de 2010

Nascente

/por Wagner Hilário/

A fonte é sempre bela,
Arlinda.
Quando ganha corpo:
Caudaloso rio de vida.

A fonte é forte
E se prova na foz:
Ondas vorazes
Prontas para o mar feroz.

A fonte é murmúrio pueril:
Lírio d’água,
Cabelos de criança.

A fonte é azul,
Reflete seus olhos de sacrifício
Que nos deu de presente
O céu

A fonte é eterna,
Arlinda,
Pois quem esquece as origens
Jamais existiu.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Muro Milenar

/por Felipe Borges*/

Já diante do muro milenar, ajoelhou-se o pôs-se a rezar... uma reza estranha aos ouvidos dos fiéis que já haviam decorado todas as rezas que deveriam fazer de frente para a monumental parede. Alguns escutavam com desdém, outros, desprezo. Mesmo que ele orasse para si e para mais ninguém, para os ouvidos astutos daqueles que se interessavam mais pela prece dos outros que pelas próprias, aquele som pífio que saia de sua boca e nariz e a articulação pobre de seus lábios eram mais que suficiente para que escutassem claramente. Em especial, uma das fiéis mais antigas que estava logo ao lado dele. Cabisbaixo e pendurado por fios invisíveis, parecia estar totalmente relaxado, solto no ar... Anda, faz logo esse pedido, não tem porque ficar agradecendo tanto e explicar por que?... A fiel anciã e curiosa que permanecia inerte em seus movimentos ao lado direito do recém-chegado reclamava da demora em fazer o seu pedido... Um outro fiel, que parecia ter sido forçado a estar lá, tentava entender e escutar o pedido dele. Mas não por curiosidade ou para ter o que falar com seus amigos... porém para poder ter algo que pedir. Anda, fala. Quem sabe eu não quero a mesma coisa! No momento preciso em que ele ia fazer o seu pedido para o muro de mais de mil anos, uma aeronave que fazia um barulho ensurdecedor e parecia mais com um dinossauro voador de proporções inimagináveis sobrevoou o deserto, a fiel ficou desesperada pois não o escutava mais... virou levemente o seu rosto e tentou ler-lhe os lábios, porém em vão, a língua dele ficou ainda mais estranha e agora estrangeira... o fiel descontente que premia por saber o desejo dele para saber se era o seu desistiu e sem perceber olhou para cima, como a maioria dos fiéis achando que seriam os únicos a fazê-lo e por isso não teria mais ninguém para vê-los desconcentrados de suas preces já criadas e apenas repetidas, para ver o objeto voador... Vai logo passa logo. dizia a fiel, mas não passava... ele estava inerte, como se estivesse completamente só, no meio da areia que a nave remexia do chão, como se fosse a sua última e única chance... Todos, agora, olhavam para cima, até mesmo a fofoqueira... Depois eu invento um pedido bem cabeludo para contar a todos..., pois já havia se passado mais de 15 minutos que o som da aeronave trepidava o muro, ele continuava absorto. Ele sabia o que queria e desejava do fundo de sua alma... O barulho cessou... acordou, abriu os olhos e sem se despedir de ninguém foi embora para nunca mais voltar, pois já não era mais preciso.

* Felipe Borges é músico, professor de inglês, tradutor e escritor, por enquanto, apenas ocasionalmente

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Deus tem saudade

/por Wagner Hilário/

Em tempo, a vida brota
Passa o tempo, corre
socorre a gente
O tempo verde vai
seca, cai a folha:
tempo de brotar outra

Todo o broto
é tão velho quanto a terra

Ai do tempo
se não transformar em riso
o pranto
Ai do Outono
se não plantar a Primavera

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Outro dia

por Wagner Hilário

O dia se deita
Poeira na noite
Estrelas

Percebe-se o sol
Quando se esconde
É lua

A gente não percebe
O sol que esconde
A alma

Anêmica realidade
Por não ser anímica
A vida

A noite explode
Manhã brilha
É sol