terça-feira, 8 de setembro de 2009

Dois Amantes

por Pablo Neruda

Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama.

De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fio senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A ventura é uma torre transparente.

O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
têm direito a todos os cravos.

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,
têm da natureza a eternidade.

Poema extraído da obra de Neruda intitulada Cem Sonetos de Amor, editada no Brasil em 2002 pela L&PM, traduzida por Carlos Nejar.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Pobre dependência

por Wagner Hilário

Seu nome é Paulo, mas para os senhores de terno, gravata, cabelo lambido e palavras empoladas ele é joãozinho. Ele não sabe disso. Nem a gente importante sabe. É como o chamam no íntimo na hora em que dão pela presença dele. Isso porque joãozinho, minúsculo como é diante da grandeza dos nobres, é quase sempre ninguém. Só se lembram dele quando algo não funciona, quando o microfone não pega, quando um toró denuncia o serviço porco que fizeram no teto, quando a projeção pifa, quando a privada entope, deixando exposta a prova de que todos são joãozinho.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vanessa Ferrari

por Wagner Hilário

Vencedora na vida e temente à morte — “só vence na morte quem perde na vida”, frase do papai —, Creusa Aparecida Ferreiro, com apenas dezessete anos virou Vanessa, boicotou o Aparecida, embora jamais tenha aberto mão de aparecer, e fez uma cirurgia plástica no sobrenome... Virou Ferrari e turbinou seu design.

Deu duro, sem perder a pompa, sem perder os olhos do tesouro prometido, em mapa mal-julgado, velho e encardido, gasto mesmo, de tantas as vistas que lhe passaram sobre e tiraram seu viço. Que viessem as tempestades, pensava, “os rumos do meu barco foram pintados com a tinta das estrelas, e onda nenhuma me fará voltar atrás”.

Da proa, esquecia a miséria íntima de sua cabine, e mirava mentiras e mais mentiras para além do horizonte, onde jamais ancoraria. Quem mesmo era? Quem queria ser, ou suas doloridas mazelas? De dia, era a personificação do sucesso aos olhos do seu mundo: mamãe e papai iludiam-se e ai de quem os desiludisse. De noite, ela pagava a dívida com o sol.

Queria crer nos méritos que ninguém tem; que o amanhã seria só verdade. Mas como, se já nem lembrava onde encontrá-la? Então, curtia os dias de inverno cheios de sol brando, da varanda gourmet de seu duplex, vencedora na vida e temente à morte.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Progresso e Eternidade

por Wagner Hilário
Apesar do progresso,
árvores ainda floram,
amoreiras
ainda dão amoras
e pássaros
salvam as buzinas
quando trinam sua flauta.

domingo, 26 de julho de 2009

Lance de Fé

por Wagner Hilário

Que força é essa a fé
que fere o medo
com a lança da certeza invisível,
que lança o homem além —
mar de felicidade,
esconderijo de grãozinho de dúvida?

Que luz é essa a fé
que clareia tanto que até cega,
suga o nosso ceticismo
e nos coloca em marcha
com pernas divinas?

Que fé é essa a força
que trazemos das vísceras às ideias
e que nos salva no último segundo —
verdadeira panaceia?

...

Que vou dizer depois de morto?
Que a eternidade é uma gota de vida
num porre de sonho.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Árido alarido

por Wagner Hilário

Verões cinzas
rasgam as tardes de dezembro

Meu cérebro inchado
de um trabalho em vão
pede folga ao céu
como um velho homem
esturricado e à beira da morte
pede água a um cacto
impassível e solitário
na tristeza do sertão

Pior que a inércia
é correr pro lado errado
dar a volta no mundo
cheio de esperança
e encontrar a mina de ouro
já sem o seu bocado

Carvalhos não adiantam
diante do fardo...
ou arruma a astúcia
que Deus soltou no vento
ou morrerá na penúria
sem nenhum alento

Quem me garante a vida
a não ser o tempo
Preciso ver entre os segundos,
mergulhar nos meus sonhos
e despertá-los concreto

Amanhã pode ser nuvem e
sem otimismo chulo
cabe a cada homem
garimpar seu sucesso

terça-feira, 2 de junho de 2009

Memória Afetiva


Pessoal, depois de um longo e tenebroso "inverno", volto a postar neste blog, que, algumas vezes, tardará, mas nunca falhará. O texto que lerão abaixo é uma crônica publicada na revista em que trabalho como subeditor, a SuperHiper, uma publicação especializada em negócios para o setor supermercadista, mas que, apesar da aparente sisudez da linha editorial dispões de espaço para um bocadinho de arte e descontração chamado Cotidiano. Boa leitura!

por Wagner Hilário

Pra Tomás, melhor que supermercados, só lojas de brinquedos... Em sua pueril visão, os produtos coloridos viviam e lhe pertenciam, todos. Talvez porque em sua cabecinha não existisse distinção entre ele e os objetos e seres que o cercavam. Assim, o seio da mãe, produto máximo em valor (prazer), se confundia com pistolas d’água cor de laranja, com narizes de palhaços e, nos supermercados, com os pedaços de carne embalados à vácuo nas prateleiras refrigeradas. Tomás arregalava os olhos e tentava alcançar aquela teta diferente com as pupilas, já que os braços não eram grandes o suficiente e as pernas não aguentavam seu corpinho. Mamava o ar, então. Como nada de verdade lhe vinha à língua para saciar sua sede pelo prazer materno, abria o berreiro.

Mais velho, já sabendo distinguir o que era o quê daquilo, mas ainda assim querendo divertir-se com tudo o que via, a presença de Tomás era invariavelmente um estorvo pros pais e uma faca de dois “legumes” pro supermercadista. No hortifrúti, colocava a laranja no chão e chutava, dizendo que era a “boia de fulebó”. No bazar, mergulhava na piscina de plástico sem água. Quando o pai ralhava, ele corria pelos corredores com os braços abertos e derrubava os concentrados de limpeza rindo, achando que era pega-pega. Na hora de ir embora, queria porque queria o chiclete cor-de-rosa choque, com a cara feia do Ronaldinho Gaúcho estampada, exposto no display do caixa. Pros pais, só prejuízo...

Passada a idade em que ir ao supermercado nem pensar, porque era bem melhor jogar bola com a galera descalço na rua de paralelepípedo da casa da vó, Tomás, que agora mamava em outros bicos, passou a ver graça de novo nos supermercados, onde encontrava cerveja mais barata pràs festas que dava em casa, na ausência dos pais, aos fins de semana, pra desespero dos vizinhos. Foi numa dessas, quando já estava no último ano de faculdade, que ele e Cláudia deixaram de ser apenas amigos. Ele prometeu que assim que festa terminasse a levaria pra casa, ela fingiu que acreditou e eles aproveitaram o vazio do lar pra preenchê-lo de paixão. Três meses depois descobriram que o ventre dela se preenchera de vida. Nove meses depois Sofia nasceu.

O começo foi derrapante: falta de grana, falta de tempo, falta de tudo, menos de amor... Assim se adaptaram e numa das inúmeras idas do casal ao supermercado, Sofia, com dois anos, saiu correndo entre as araras da seção de têxtil da loja, deslumbrada com as cores das roupinhas penduradas. Parou e apontou pra um vestidinho. “Quelo eche, papai.” Cláudia nem notou, entretida que estava com outras peças, mas a cena mexeu no inconsciente de Tomás, que sentia, no profundo desconhecido de sua vivência, já ter vivido aquele instante (ou pelo menos algo parecido). Olhou pra esposa e, dominado por um ciúme paternal besta e incompreensível pros outros, disse a Cláudia:

– Enquanto a Sofia estiver sob nossa responsabilidade, não vai passar uma noite longe da gente.

Cláudia torceu o nariz. Sem responder nada, olhou pra menina, que namorava a roupa, pegou-a pela mão e depois pegou o vestidinho... Foram juntas pro caixa.