sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Retorno

/por Wagner Hilário/

Saudad’ocê,
doce, como só você

Saudad’os seus olhos
horizontes
desfazendo as nuvens
d’hoje
pousando o voo
que ainda nem decolou

Saudad’ocê
pois já tem tempo
meus olhos não veem
o seu sorriso...

Saudad’isso

domingo, 19 de dezembro de 2010

Nascente

/por Wagner Hilário/

A fonte é sempre bela,
Arlinda.
Quando ganha corpo:
Caudaloso rio de vida.

A fonte é forte
E se prova na foz:
Ondas vorazes
Prontas para o mar feroz.

A fonte é murmúrio pueril:
Lírio d’água,
Cabelos de criança.

A fonte é azul,
Reflete seus olhos de sacrifício
Que nos deu de presente
O céu

A fonte é eterna,
Arlinda,
Pois quem esquece as origens
Jamais existiu.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Muro Milenar

/por Felipe Borges*/

Já diante do muro milenar, ajoelhou-se o pôs-se a rezar... uma reza estranha aos ouvidos dos fiéis que já haviam decorado todas as rezas que deveriam fazer de frente para a monumental parede. Alguns escutavam com desdém, outros, desprezo. Mesmo que ele orasse para si e para mais ninguém, para os ouvidos astutos daqueles que se interessavam mais pela prece dos outros que pelas próprias, aquele som pífio que saia de sua boca e nariz e a articulação pobre de seus lábios eram mais que suficiente para que escutassem claramente. Em especial, uma das fiéis mais antigas que estava logo ao lado dele. Cabisbaixo e pendurado por fios invisíveis, parecia estar totalmente relaxado, solto no ar... Anda, faz logo esse pedido, não tem porque ficar agradecendo tanto e explicar por que?... A fiel anciã e curiosa que permanecia inerte em seus movimentos ao lado direito do recém-chegado reclamava da demora em fazer o seu pedido... Um outro fiel, que parecia ter sido forçado a estar lá, tentava entender e escutar o pedido dele. Mas não por curiosidade ou para ter o que falar com seus amigos... porém para poder ter algo que pedir. Anda, fala. Quem sabe eu não quero a mesma coisa! No momento preciso em que ele ia fazer o seu pedido para o muro de mais de mil anos, uma aeronave que fazia um barulho ensurdecedor e parecia mais com um dinossauro voador de proporções inimagináveis sobrevoou o deserto, a fiel ficou desesperada pois não o escutava mais... virou levemente o seu rosto e tentou ler-lhe os lábios, porém em vão, a língua dele ficou ainda mais estranha e agora estrangeira... o fiel descontente que premia por saber o desejo dele para saber se era o seu desistiu e sem perceber olhou para cima, como a maioria dos fiéis achando que seriam os únicos a fazê-lo e por isso não teria mais ninguém para vê-los desconcentrados de suas preces já criadas e apenas repetidas, para ver o objeto voador... Vai logo passa logo. dizia a fiel, mas não passava... ele estava inerte, como se estivesse completamente só, no meio da areia que a nave remexia do chão, como se fosse a sua última e única chance... Todos, agora, olhavam para cima, até mesmo a fofoqueira... Depois eu invento um pedido bem cabeludo para contar a todos..., pois já havia se passado mais de 15 minutos que o som da aeronave trepidava o muro, ele continuava absorto. Ele sabia o que queria e desejava do fundo de sua alma... O barulho cessou... acordou, abriu os olhos e sem se despedir de ninguém foi embora para nunca mais voltar, pois já não era mais preciso.

* Felipe Borges é músico, professor de inglês, tradutor e escritor, por enquanto, apenas ocasionalmente

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Deus tem saudade

/por Wagner Hilário/

Em tempo, a vida brota
Passa o tempo, corre
socorre a gente
O tempo verde vai
seca, cai a folha:
tempo de brotar outra

Todo o broto
é tão velho quanto a terra

Ai do tempo
se não transformar em riso
o pranto
Ai do Outono
se não plantar a Primavera

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Outro dia

por Wagner Hilário

O dia se deita
Poeira na noite
Estrelas

Percebe-se o sol
Quando se esconde
É lua

A gente não percebe
O sol que esconde
A alma

Anêmica realidade
Por não ser anímica
A vida

A noite explode
Manhã brilha
É sol

domingo, 24 de outubro de 2010

Obra da Vida

por Wagner Hilário

Uma manhã nasce assim:
Duas mãos miúdas esticando meus lábios pelas bochechas.
Se pinta assim:
Dois olhos celestes de infância concentrados no desenho vivo
Que sou eu.
— Que tá fazendo, filho?
— Tô te sorrindo.

sábado, 9 de outubro de 2010

Desfeito e refeito

por Wagner Hilário

Defeito, eu feito Deus feito de barro
Ramo de flores, jarro de sonhos...
Eu derramado

Punhal, pena, poema afiado
Pomba alva, neve na praça
Pobre alvo, eu, minha caça

Eu feito Deus feito de culpa, desculpa
De novo, eu, barro, esbarro em Deus
Me refaço

Ramo de flores, jarro de sonhos
Eu no seu seio, seus braços
Só não sei até quando equilibrado