segunda-feira, 16 de março de 2009

Sonâmbulos

por Wagner Hilário

A cidade são carros
e asfalto
solo lunar
pretensamente pavimentado

Lágrimas de inverno
correm
cadentes
os olhos do metrô

O dia é manhã cedo
As nuvens escuras
fazem-no
entardecer sombrio

Barulho
ferro atrito
trilho motor

Silente sonolento
o homem segue
as voltas
do mundo

sexta-feira, 13 de março de 2009

História Alegre

por Wagner Hilário

Jorge queria escrever um texto alegre, que narrasse uma história de risos. Estava cansado da tristeza da sua prosa, de seus versos sem vento de manhã, sem caneta que descrevesse o dia. Era tudo tão noite que de claro só as luzes piradas das danceterias e a ideia de que o mundo é um fado e que a felicidade não passa de uma pobre mania dos ignorantes. E assim o raio da inspiração não vinha, e sua alegria oca de malandro latino já nem pra fazer som lhe bastava.

Até que do ventre da solidão ele foi tirado à luz da carência. Descobriu-se frágil como um recém-nascido, fruto do prazer feito para tolerar a tristeza, fruto de um enlace sem amor, sem enlevo, mas que ainda assim era mais que um sopro qualquer de vento ou de brisa, era inspiração cristalina, mais bela que a de qualquer artista, a baforada da esperança de Deus, a que nos habituamos chamar de vida. E se Deus lhe jogara nos braços aquela criaturinha, depois de tanto Lhe pedir alegria que lhe valesse efusiva narrativa, pensou que ali estivesse o princípio do roteiro, a pista de decolagem de sua história.

Foi o tempo de nutrir a cria o que a mãe-loba passou ao lado do pequeno. Não se sabe ao certo o motivo do abandono, quem sabe o fato de ela própria ser órfã de pai e mãe e criada pelos avôs maternos, cuja bronca da filha não lhes deixou na barriga do afeto líquido para alimentar a neta de amor. Então, Jorge, que apesar da tristeza de poeta, sempre fora amado, lembrou-se, no difuso inconsciente, do carinho em seu reservatório de emoções e não titubeou em banhar de paternidade seu menino pelo tempo que fosse necessário, até que se tornasse um sujeito grande e feliz.

Mas como isso, se nem mesmo ele era capaz de contar uma história alegre? Como, se ele não se via feliz? Não sabia, mas daria um jeito. Assim, por longos anos, esqueceu-se da paranoia da dita história alegre e se entregou ao filho como um suicida se entrega à morte. Esqueceu-se da própria tristeza, dando-lhe papel e tinta guache para que aprendesse desde cedo a pintar a própria vida com as cores mais coloridas. Falou-lhe de um Deus em que antes não cria, mas que depois do pequeno passou a cultivar. Falou-lhe da glória de ser humilde e da magia de transformar a própria realidade, que moram no peito dos homens, mas tão difíceis de encontrar.

O pequeno se tornou meio-médio, depois médio, depois meio-grande e finalmente cresceu. Como o pai, era apaixonado pelas palavras, e tanto de falar como de escrever gostava muitíssimo. O pai sabia e, em silêncio, a tudo lia, já que o menino com ele não tinha segredos, e vice-versa. Jorge então se convencia: a tristeza, pro poeta, é sina. Até que certo dia o menino lhe entregou um texto extenso. Ele devorou as páginas e conteve as lágrimas nos últimos parágrafos. Olhou pela janela o céu poente, viu azul, viu roxo, viu o laranja do sol tingir as nuvens, viu as cores da pintura de seu menino, que naquele instante entrou no cômodo...

– É a história do pai, né, filho? É uma história alegre.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Cordas de cores

por Wagner Hilário

Uma manhã solta no vento
traz cordas de aço
harmônicas
como num toque clássico

Atido à letra entendo
que o cancioneiro é bravo
faz de uma canção brega
um belo espetáculo

Nina neném com cólica
e põe a mamãe cansada
num plácido leito de fadas

Mesmo a velha senhora
com bico de papagaio
ergue-se no tom da nota
e não reclama do fardo

De fato, numa canção
antes do bom arranjo
do palavreado, vale o coração

Ou, ainda

numa manhã cinza e fria
sem horizontes
cabe a vossa pupila
colocar as cores

Muito obrigado!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Um homem no trânsito (descrição)

por Wagner Hilário

Olhos atentos ao fluxo de automóveis que no instante não flui. Uma caneta vermelha Bic – vê-se a marca e a cor pela tampa – no bolso da camisa branca que pela aparente textura é nova, sem listras nem detalhes, lisa. Contudo, a maneira como a traja confere à veste uma impressão de velha. Os três botões mais próximos ao pescoço, abertos. O peito parcialmente visível traz junto de si um óculos de grau, de armação antiquada e cor vinho, pendurado por uma corda preta que lhe envolve o pescoço. Esse aspecto mais a barriga sobressalente na camisa dão-lhe um ar de viciado em jogo de cavalos, como se estivesse diante de uma televisão que transmite uma prova despida de glamur, damas bem vestidas, charutos e cartolas. Só vale mesmo pra quem aposta.

O rosto do homem é vermelho do clima e carnudo, mas ainda assim seria exagero chamá-lo de gordo. O nariz é fino, a boca também. A atenção do olhar ao trânsito em momento algum sugere tensão, irritação, nervosismo. As sobrancelhas e as pálpebras crispadas devem-se ao sol mais soberano e luminoso do que nunca nesta manhã de março, de céu azul e rasas nuvens brancas, apenas levemente encardidas em suas extremidades, em virtude da poluição paulistana.

Ele está sentado ao volante de um Volkswagen Parati prata um ponto oito. A exemplo do motorista, o veículo não é novo nem velho. Ao ver que os carros quase apinhados à sua frente progridem, em tênues solavancos, como se soluçassem para evitar as milhares de batidas possíveis entre si, ele adquire uma posição mais ereta ao volante – insuficiente para minimizar a saliência abdominal –, engata a primeira e segue o séquito caótico dos carros recém-nascidos para mais um dia de trabalho na frenética e em constante colapso cidade de São Paulo.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Espelho das águas

por Wagner Hilário

A poesia
ainda me dá mais prazer
O verso
é como um lance da sorte
se arroja e
num facho de luz
germina
epidemia de sensações
risos e lágrimas

É como um corte
de navalha
no céu
rasga o véu azul
no ponto vital
jorra ao léu
um delicado arco-íris

O poeta
sabe tocar o infinito
descarta
aeronaves modernas
se posta
num canto rústico da terra
e, à beira de uma laguna
beija o universo
no espelho das águas

quarta-feira, 4 de março de 2009

E, de repente...

por Rubem Alves

E, de repente, tudo acabou. A Bolsa de Nova York quebrou. Meu pai, exportador de café, perdeu tudo. Não conseguiu fazer as transformações alquímicas por meio de palavras a que estava acostumado. Sua magia era fraca para tragédia tão grande.


Esse texto foi extraído da obra O velho que acordou menino [infância], de Rubem Alves, publicada, em 2ª reimpressão, pela editora Planeta, em 2007.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Poeta Aprendiz

por Vinícius de Moraes

Ele era um menino
valente e caprino
um pequeno infante
sadio e grimpante.
Anos tinha dez
e asinhas nos pés
com chumbo e bodoque
era plic e ploc.
O olhar verde-gaio
parecia um raio
para tangerina
pião ou menina.
Seu corpo moreno
vivia correndo
pulava no escuro
não importava que muro
e caía exato
como cai um gato.
No diabolô
que bom jogador
bilboquê então
era plim e plão.
Saltava de anjo
melhor que marmanjo
e dava o orgulho
sem fazer barulho.
No fundo do mar
sabia encontrar
estrelas, ouriços
e até deixa-dissos.
Às vezes nadava
um mundo de água
e não era menino
por nada mofino
sendo que uma vez
embolou com três.
Sua coleção
de achados de chão
abundava em conchas
botões, coisas tronchas
seixos, caramujos
marulhantes, cujos
colocava ao ouvido
com ar entendido
rolhas, espoletas,
e malacachetas
cacos coloridos
e bolas de vidro
e dez pelo menos
camisas-de-vênus.
Em gude de bilha
era maravilha
em bola de meia
jogando de meia-
-direita ou de ponta
passava da conta
de tanto driblar.
Amava era amar.
Amava sua ama
nos jogos de cama
amava as criadas
varrendo as escadas
amava as gurias
da rua, vadias
amava suas primas
levadas e opinas
amava suas tias
de peles macias
amava as artistas
das cine-revistas
amava a mulher
a mais não poder.
Por isso fazia
seu grão de poesia
e achava bonita
a palavra escrita.
Por isso sofria.
Da melancolia
de sonhar o poeta
que quem sabe um dia
poderia ser.

Esse poema foi extraído da obra Para Viver um Grande Amor - Crônicas e Poemas, que fez parte da Coleção Folha - Grandes Escritores Brasileiros, publicada em 2008